

FREI GILSON, UMA MODA?
Podendo dormir até mais tarde, pois estou com o pé esquerdo engessado e, portanto, com tempo para descansar durante o dia; já que não posso sair de casa, fui experimentar o Frei Gilson rezando o terço em todos os dias da Quaresma, às quatro da manhã, ao vivo na Rede Vida e na Canção Nova.
Tenho dificuldades com a Renovação Carismática Católica (RCC) há pelo menos uns vinte e cinco anos; já tive sérias decepções com o movimento; e ainda me escandaliza a oração em línguas; os desmaios após receber uma bênção; as músicas repetitivas; a idolatria pelos seus expoentes; os pregadores - esquecendo de dar o crédito ao Nosso Senhor - alertando que suas palavras já salvaram muitas vidas; milagres sem comprovação científica; bispos, arcebispos e cardeais calados ou participando de forma ativa de toda a bagunça; a péssima qualidade da literatura que os fieis consomem; fundadores das novas comunidades sendo tratados como profetas; falta de caridade com quem tem fé piedosa-popular; envolvimento com a política, pois a Igreja não deve ter partido, já que é de todos etc. Posto isso, vou devagar com o Frei Gilson para não faltar com a caridade com ele: dizem que não cobra pelos shows que faz, mas quando é obrigado a receber algum dinheiro, doa tudo para os Carmelitas Mensageiros do Espírito Santo, sua comunidade. Esclareço que se apresentou no último réveillon na Avenida Paulista, onde muitos artistas seculares de grande apelo popular também se apresentaram. Regeu a plateia como se estivesse cantando hinos da Igreja ao mesmo tempo em que, entre uma música e outra, demonstrou humildade nas palavras de aconselhamento espiritual, sua especialidade. Tem dois interessantes programas na Canção Nova, principal rede de comunicação dos carismáticos; um sobre espiritualidade e outro sobre doutrina da Igreja, este apresentado com um bispo bem informado sobre os caminhos e descaminhos da RCC. Sei lá, o sacerdote de trinta e nove anos de idade tem futuro: o acompanhei com atenção por alguns meses e acho que não tem nenhuma das afetações frequentes entre os carismáticos. Ainda pesquiso se ele é de anunciar milagres por inspiração sobrenatural, algo como “o Senhor está me dizendo que uma pessoa com uma ferida na pele que não para de sangrar agora está sendo curado. Levante o braço se é você”, ou se ora em línguas. Enfim, como julgar com um cisco nos olhos é um pecado gravíssimo; conhecer o frei para emitir uma opinião sobre ele e, portanto, indicá-lo para meu filho adolescente; está sendo bem edificante. A RCC transforma Santa Teresinha, São Francisco, São Padre Pio e, pior ainda, um santo canonizado a pouquíssimo tempo, o jovem São Carlo Acutis, num açucarado de autoajuda que só ajuda quem quer se promover nas costas deles: pouco do ensinamento real dos santos que citei efetivamente vinga na vida de quem quer facilidades na caminhada rumo à Jerusalém Celeste. Já dizia Carlos Heitor Cony, finado imortal da ABL que foi colunista do jornal Folha de São Paulo e agnóstico que conhecia com profundidade e respeito o catolicismo, que “católico é para quem pode, não para quem quer”. Sim, a caminhada pela vida eterna próxima da Luz que é Deus exige muito da pessoa, nunca é fácil, e geralmente conta com muitos tropeços. É bom contar com a honestidade e o trabalho hercúleo de pessoas como o Frei Gilson para um conforto espiritual em época de aridez na fé, fato que acontece atualmente comigo, que fui aposentado antes da hora, mas não me acostumo a ser tratado como um inválido, já que a esquizofrenia, se bem acompanhada, não impede seu portador de levar uma vida produtiva. Grato, Senhor, por ter me apresentado alguém que dificilmente irá me constranger de forma negativa. A Igreja têm milhares de meios para viver a fé com honestidade, e não só o “batismo no Espírito Santo”. Para a maioria da RCC, quem como eu que já recebeu o tal batismo em mais de uma oportunidade e nada sentiu, perdão pelo cacófato, tem pouca fé.
GONZO E HIPERGRÁFICO
Enviado por GONZO E HIPERGRÁFICO em 10/03/2026
Alterado em 16/04/2026 Comentários
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